Imortalizar

O amor está na moda. E já nasce feito. É tão simples como caminhar e tão rápido como tremeluzir. Partilha-se por chamadas e destrói-se por mensagens. E depois de um, vem quantos outros se quiser, porque o que mais existe são pessoas abertas ao amor.
Perdoem-me aqueles que não seguem as tendências e como tal se encontram em estado démodé, que nos dias que correm tudo o que não se rege por linhas modernas deve ser abolido. E sabem lá os da antiguidade clássica como gerir este amor estrangeirado que nos implementaram sem aviso prévio.
É daí que tu apareces, desses filmes antigos alimentados por bases lendárias que o Homem imortalizou face aos deuses. Quem sabe se também tu não és uma lenda que se eternizará, tu com todos os teus feitos amorosos que passam a perna aos mortais de hoje. Quais cartas seladas e quais flores arrancadas do jardim, quais contemplares distanciados porque o amor é crime e punido é quem o pratica desaforadamente. Qual amor lusitano que nos enriquece a alma diariamente, suspirando pelos cantos toda a ilusão que ele cria sem medir a dor que tão facilmente inflige.
Deixa-te estar assim, como um quadro pintado que nem rasgado é esquecido e que nem o tempo torna velho, que tempo é o que mais falta ao mundo e aos que nele pairam. Deixa-te estar assim e perpetua então o amor lírico, esse amor verdadeiro que nos tira o fôlego e nos deixa às voltas na cama. Esse afecto que nos faz contar os minutos e nos arranjar com toda a perfeição, que nos torna mais felizes e nos faz sentir em casa, que nada deixa abalar e que nem com mil amores seguintes é apagado. Esse bem-querer que não tem que ser o primeiro mas que certamente será o último de tanto impacto que no ânimo causa, tal e qual como um tremor de terra exuberante que nada deixa intacto. É assim que a alma fica, destroçada e desamparada, como que meia cozida e prestes a deixar o comum mundo dos humanos para também ela se imortalizar.
O amor não deveria estar na moda. Nem sequer nascer feito. Há a conquista diária e a construção lado a lado, a qualquer momento do dia. E há sempre tempo para ele. Há sempre tempo para o ir fazendo aos pouquinhos mas bem feito, sem pressas nem coisas-e-tal. Não há desculpas nem mal-entendidos. Há somente o amor. Que quando é verdadeiro, imortaliza-se.

Comentários

Vanessa ൪ disse…
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Diogo Silva disse…
Quando comecei a ler o teu texto fiquei "hummm alguma coisa se passa, normalmente escreve coisas menos de senso comum e de mais coração", continuei e mesmo no fim (ainda impressionado com a forma incrivel como escreves e como fazes usos das expressões que parecem saidas num "instantaneo" que desconheço mas que me intriga) disses-te tudo aquilo que eu penso e finalmente vi onde estava a força e a "personalidade" dos teus textos. Como sempre saio daqui regalado com os teus textos, é sempre um prazer. beijinho e parabéns =0)
Diogo Silva disse…
Antes de mais agradeço a apreciação que fizes-te ao meu texto =) Realmente tens razao, é um bocadinho banalizado neh? Parece cada vez mais que quem não tem um Amor é uma especie de doente da sociedade. E depois há sempre o dito Amor que não passa de paixão e que não poucos confundem ou querem acreditar que é Amor porque é isso que todos procuram. Enfim, gosto de ver que és critica em relãção a tal situação porque mostras que a rejeitas. =) beijinho
Lola disse…
Gostei muito :)

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