Não há nada melhor

Não há nada melhor que o amor espontâneo e sincero. Amor esse que nasce do nada, de um simples embate ou de duas trocas de olhares em que a insegurança nos domina e viramos o rosto na perspectiva do outro não reparar que os nossos olhos o procuram no meio de uma agitada multidão.
Se houver algo melhor, que seja o amor por si só, esse amor que nos faz percorrer o mundo inteiro e nos retira o sono todas as noites pelos dias que passaram sem um único contacto. É a esse amor que é possível roubar e oferecer letras de forma a conjugar-lhe o verbo, de modo a recitá-lo em cada língua, viva ou morta, em cada acto e em cada momento. Amor esse que não é meu nem teu; existe o nós numa procura de partilha e sedução, na conquista que nunca acaba e que nunca é tomada por garantida.
Se houver algo melhor, que seja o que criamos a cada dia, a cada beijo de despedida ou grito de prazer. Que sejam os formigueiros que me provocas na barriga ou então que sejam os nossos dedos entrelaçados provocando uma explosão de magia multicolor.
Quando se obtém o amor, tudo o resto perde importância e o buraco que tanto tentamos preencher, tem o lugar ocupado tão facilmente. Quando algo na sua forma individual tem a capacidade de nos ser suficiente, para quê possuir tudo o resto pela simples audácia de querer? Para quê levar-nos mais longe se o ponto no mapa que ocupamos encontra-se em estado de equilíbrio? Até o amor deve obedecer às leis químicas.
E, quando se toca no português deste mundo, esse idioma lusitano que nos querem roubar, o amor escreve-se com quatro singelas letras e expressa-se nas entrelinhas de uma prosa contemporânea ou de uma poesia de Camões. No silêncio entre cada nota musical, nos espaços em branco de alguma tela valiosa, nos passos tremidos ou num abraço apertado. Qualquer arte, qualquer ser vivo, qualquer memória e esperança arrasta amor e leva consigo tudo o que de bom é possível aproveitar de algo que a todos aquece o coração. E quando esse amor parte, quando esse amor nos abandona na cama e deixa a porta aberta na ideia de voltar sem provocar ruídos e nos despertar do sono, a sensação de que tudo fica por ali eclode o mundo e explode-nos o peito. O desejo de um colapso para que em quilómetros de terra fiquemos só nós dois é tão forte e arrebatador que sensivelmente provoca um. Mas quando se parte, até a mais leve brisa pode fechar a porta. E, uma vez fechada, nada nem ninguém adquire o poder de rodar a maçaneta de maneira a no outro lado estarmos nós, envolvidos em lençóis de cetim, com um lugar pronto a ocupar.
O amor é para ficar. É para ser construído, sustentado e dinamizado a dois, na forma característica que duas almas desfrutam desde o momento em que se moldam uma à outra.
Se houver algo melhor que o amor que se arma em ladrão e nos rouba os ses pela noite a dentro, que nos destrói a linha do pensamento racional e nos faz agir por impulsos, esse amor inquestionável que dá vontade de ter a cada vez que o mar evoca a sua presença, de cada vez que o sangue estagna sempre que entra no coração, por favor, avisem-me. Permitam-me conhecer algo de uma luxúria superior àquela a que nos oferecemos pelo simples deleite da dor. Não há nada melhor que o amor. Este amor por si só, tão ardente e inquietante.

Comentários

Rute Maia disse…
Adoro!
É única a forma como escreves (:
daniela disse…
caramba, ângela, um texto muito sentido mesmo! adorei minha pequena!
Gabriela disse…
este lindoooo texto fez-me lembrar a conversa que tivemos quando fomos "até" à praia xd
ly :b
Ana Mourão disse…
obrigada querida (:
ana . disse…
está lindo lindo, estou a seguir *

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