Outro combate

Podia dizer que nada do que se passa na sociedade contemporânea me inquieta. A escassez de recursos, a poluição em todos os sistemas terrestres, as guerras e doenças que matam milhares de pessoas nos quatro cantos do mundo, a fome que nos desassossega só de pensarmos na sua existência, as decisões políticas que muito deixam a desejar, a falta de atenção, carinho e preocupação que tanto fazem uma criança sofrer. Como um bom português diria, estou-me nas tintas. Este é o problema da humanidade que ao longo das gerações tem aumentado: o quero lá saber, o deixa andar, o se eu não resolvo, alguém o fará. A questão que se coloca é quem se chegará à frente para resolver a alhada com que nos temos deparado. Quem não está disposto a cair no abismo por outros construído, quem não se designa a ver a vida a andar para trás mesmo sem o tic-tac dos relógios o fazer, como que numa proporcionalidade indirecta. Não basta lamentar, praguejar quem tantos erros comete ou pedir aos sete ventos uma ajudinha divina. É preciso arregaçar as mangas, deixar o quentinho do sofá lá de casa, lutar contra a desigualdade e impor o uso daquilo a que temos direito. Quais bens essenciais mais caros que os que se dispensam com um pouco de bom senso, qual escolaridade obrigatória que nos coloca no topo da lista dos mais formados quando mal se sabe escrever ou falar, qual evolução se o Homem não faz mais do que resistir à generosidade e entendimento entre si. Depois vem a admiração pública de qualquer revolução, manifestação ou até guerra civil que possa, eventualmente, surgir. Vem também o lastimar e o abanar da cabeça cabisbaixa como quem abandona as armas e pondera o seu envolvimento contra todos aqueles que roubam o que é nosso por direito, depois de tanto suor e noites sem dormir para o obter. É preciso defender ideologias, esperanças, a cultura, as paisagens, o que é nosso e o que é de todos, o que está certo, o que deve ser para bem maioritário. Nada mais do que a defesa da verdade que nos saqueiam durante o sono, manipulando-nos para que o falso se torne em autêntico. Para isso, é preciso que todos avancemos neste outro combate, mais um para juntar à lista da história da humanidade. Não permitiremos que ela fique por aqui, neste ponto de situação tão mal redigido sem um tradicional fim de felicidade.

Comentários

daniela costa disse…
duas palavras: muito bom!
Anónimo disse…
Não poderia ser mais verdadeiro, parabéns.

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