Truques

Vim até aqui escrever um bocadinho, uma vez mais para ti, meu querido. Já tinha saudades de te chamar assim ou de qualquer outra forma carinhosa com que sempre te aconcheguei a alma e permiti que a minha se entregasse um pouco mais a ti. “As saudades são tramadas”, já me diziam, e eu concordo inteiramente. São tramadas, difíceis de controlar e dão a impressão de que não diminuem por muitas semanas que passem. São amargas e a pouco mais sabem do que a sal de tantas lágrimas que provocam instantaneamente. Por mais diversidade de saudades que haja, estas são as que a tua ausência deixou. Cruéis, colossais, profundas, fatais. Por enquanto é assim, mas quando passarem mais semanas, semanas que formam meses e meses que formam anos, as saudades vão mudar de género e apenas vão acarinhar-me o coração e fazer-me sorrir enquanto ando por aí. Espero que não demore tanto porque, apesar de ter um coração enorme, este não aguenta muito mais. É a cabeça que aguenta tudo. A maior das tempestades, a mais terrível das guerras, a mais lastimável das perdas, o maior dos conflitos, o mais perigoso dos obstáculos, o mais confuso dos labirintos. Aguenta porque possui truques e manuseia-os da melhor forma. Aguenta porque é embrenhada num tecido cientificamente poderoso e, por muito que as células do nosso cérebro não se renovam, têm sempre muito para dar. O coração é fraco em quase todas as maneiras. Possui um tecido muscular forte mas que não permite aguentar a quantidade suficiente de facadas. Bombeia o sangue para todo o teu corpo, não importa o quão alto sejas, mas enfraquece a cada dia porque ele não se comanda a si mesmo e não é capaz de tomar um rumo sozinho. Tem que haver um equilíbrio no mundo e nós temos o nosso próprio. Órgãos que nos ajudam a seguir em frente e outros que nos fazem arrastar sobre a calçada mais agreste. Pedaços de alma que se mantêm intactos e fragmentos que nunca se voltam a juntar, nem com a mais forte das colas. E depois há as lutas perdidas no nada, o sangue derramado escondido por entre grãos de areia, lágrimas limpas às mangas de um velho casaco. Fica o coração despedaçado e a mente intacta, a desafiar os seus próprios truques enquanto ordena ao coração separar-se em dois para que com o tempo deixe o teu para trás e siga sozinho, um pouco mais incólume, um pouco menos enforcado, um pouco mais aliviado.

Comentários

daniela disse…
sinto-me tal e qual tu *
daniela disse…
gostava de ter a tua transparência, gostava de me conseguir expressar como te expressas. é simplesmente bela a forma como o fazes!
V'Andreia disse…
Obrigada querida *
Daniela disse…
Digo o mesmo do teu *.*

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