Ganhar asas

Perdemos o controlo, perdemos o chão, caímos no esquecimento.
São mil vidas que por nós passam e nenhuma nos ensina no devido momento aquilo que gostaríamos de saber. Aprendemos demasiado tarde, aprendemos depois da morte e por vezes morremos sem descobrir as coisas mais naturais.
Passamos metade dos anos a correr contra o tempo, quando o que devíamos era andar com o tempo, conforme o tempo. Evoluirmos e evoluirmo-nos. Sentir e fazer sentir. Compreender e fazer compreender. Dar e receber.
Sonhamos em ser mais do que somos, e como tal, esquecemo-nos de viver ao nosso jeito. Rejeitamos a diferença e desejamos a igualdade, mesmo sabendo que em certos pontos a diferença é o melhor, é o que dá mais cor, é o que torna o Mundo um lugar melhor. Pretendemos lutar mas raramente o fazemos. Desejamos continuar, mas são mais as vezes que paramos e ficamos quietos. Afastamo-nos do abismo mas na realidade aproximamo-nos dele a cada passo que damos. Olhamos, mas raramente vemos. Ouvimos, mas invulgarmente escutamos. Tocamos, mas excepcionalmente sentimos. Damos pouca proficuidade ao corpo, damos muito mais às máquinas. Caímos sozinhos, e é assim que nos levantamos. E há quem nunca se levanta.
Somos selvagens e pouco racionais; somos antropófagos e pouco humanos. Achamo-nos superiores à Natureza, mas somos inferiores à mesma. Questionamos tudo aquilo com que nos deparamos, mas não trabalhamos para uma resposta credível e segura. Apontamos defeitos, sem avaliar qualidades. Ponderamos. Não agimos. Mil boas intenções, um gesto errado.
Um dia ganharemos asas, um dia acabaremos por nos libertar. Aí a liberdade será maior do que aquilo que juntos somos, um dia praticaremos aquilo que idealizamos. Ganharemos asas, e conquistaremos novamente o chão, tornar-nos-emos racionais, cortaremos os fios com que somos manipulados e viveremos. Viveremos, dando uso ao real sentido da palavra, sem qualquer má interpretação ou desculpa para não o fazer. Seremos mais leves, seremos mais justos, seremos mais. E nada será demasiado pesado para quem tem asas.

Comentários

Salette disse…
Se os teus esforços não deram resultados, não desanimes, pois o sol ao nascer dá um espetáculo. A maioria das pessoas estão a dormir e mesmo assim nunca deixa de brilhar...
Por isso solta-te, liberta-te, vive...
Beijinhos
Joana disse…
apaixonas-te e pumba, ganhas asas como no teu texto, esta lindo, como sempre!
Bre disse…
Nossa, eu adorei o texto. A parte:
"Olhamos, mas raramente vemos. Ouvimos, mas invulgarmente escutamos. Tocamos, mas excepcionalmente sentimos."

Resume tudo que acontece na nossa vida.
É bem isso que acontece e a gente só se dá conta lááá na frente. Penso que agora mesmo, muitas coisas, nós olhamos.. mas não vemos. Penso que devo ver, escutar e sentir mais, sem correr risco de passar pela vida com algo superficial.

te adc.

beijos.
m. disse…
adoro a música , a suavidade dos textos , as imagens , e todo o blog (:
AnaMoreira disse…
Mais um grande texto, meu amor.
Ando aqui a ouvir as tuas músicas xD (; também são muito lindas, a sério :o temos gosto musicais semelhantes, o que é bom (:
Melhor frase deste texto: «Passamos metade dos anos a correr contra o tempo, quando o que devíamos era andar com o tempo, conforme o tempo.»
Adoro-te, com todas as letras <3

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