Sentimentos guardados

Sinceramente não sei porque não o faço. Não entendo porque não grito tudo de uma vez, porque não digo na totalidade o que me magoa a alma e me fere o coração. Se calhar é porque tenho medo de não ser capaz de o fazer. As lágrimas vão começar a escorrer pelo teu rosto uma a uma, o teu olhar vai passar dos meus olhos para o chão que pisas, o teu punho vai-se cerrar e o teu corpo vai descair para a frente como quem carrega um enorme peso.
Talvez te escreva uma carta. Mas só talvez, sem certezas nem promessas. Quiçá nunca o faça, ou amanhã já a tenhas nas tuas mãos, ou daqui a uma semana ou um mês. Possivelmente só o faça quando me for embora, para que a distância fique entre nós de forma a não termos que olhar para os olhos um do outro depois das palavras que te escrevo e das ideias que criarás na tua cabeça, como conclusões ou mesmo rancor. Sim, provavelmente não aches que tenha razão em me magoar, em me sentir infeliz no meio de tudo isto. É possível que penses que eu te magoo a ti sem ter este sentimento de retorno, mas tenho. Tenho em cada dia, em cada contemplar teu, em cada vocábulo que proferes, em cada gesto que praticas. Cada som da tua voz transparece tristeza, e eu apenas não mostro a minha para não te sentires mais em baixo, para que o ar não se torne insuportável de respirar, para que o ambiente não fique mais rarefeito do que já é.
Dou voltas e voltas ao pensamento mas depois de tanto tempo não compreendo o porquê de tanta irritação. Em tudo aquilo que digo ou faço vês um problema, e como na maior parte das vezes eles não existem, tu crias os teus próprios.
Quem sabe o tempo mude esse mundo que criaste em teu redor, qual bolha que te sustém no ar sem conseguires descer à terra e ver que a vida é bem mais fácil do que o que parece e que se não criasses tantas crises também o acharias. Mas para isso vai ser preciso mais tempo, mais do que aquele que já passou, mais do que aquele que o próprio tempo concebe ao tempo em si.
Só te peço que mantenhas em ti, mesmo que numa caixinha pequenina esquecida no teu coração, dentro de outras tantas como as matrioskas, a certeza de que gosto de ti como sempre gostei e sempre vou gostar. Não deixes de lado a importância que ganhaste na minha vida com o passar dos anos pois eu também não a deixei, não ponhas em causa o papel que tens na minha história, não ponhas em causa aquilo que construímos nem os momentos que passamos. Os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras birras, as primeiras conversas de adultos. Presenciaste cada uma e com tal força que ainda guardo em mim te peço para presenciares todas as que ainda tenho para vivenciar.
Guarda essa caixinha sem deitares a chave fora. Protege-a e não deixes que o tempo a torne mais pequena do que ela já é. Farei o mesmo com a que possuo com o teu nome, um pouco maior talvez, um pouco menos esquecida, um pouco tão igual, mais do que nós mesmos sabemos.



Comentários

Anónimo disse…
Por vezes guardamos aquilo que sentimos, só para não fazermos sofrer quem mais gostamos.
Desidéria disse…
"Quem sabe o tempo mude esse mundo que criaste em teu redor, qual bolha que te sustém no ar sem conseguires descer à terra e ver que a vida é bem mais fácil do que o que parece e que se não criasses tantas crises também o acharias. Mas para isso vai ser preciso mais tempo, mais do que aquele que já passou, mais do que aquele que o próprio tempo concebe ao tempo em si.
Só te peço que mantenhas em ti, mesmo que numa caixinha pequenina esquecida no teu coração, dentro de outras tantas como as matrioskas, a certeza de que gosto de ti como sempre gostei e sempre vou gostar. Não deixes de lado a importância que ganhaste na minha vida com o passar dos anos pois eu também não a deixei, não ponhas em causa o papel que tens na minha história, não ponhas em causa aquilo que construímos nem os momentos que passamos."

Identifiquei-me muito com esta parte.
Escreves muito bem, parabéns :)*

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